05/02/2015 às 11:28
Minhas melhores memórias...

Se alguém chegasse para você e perguntasse quais foram os momentos mais marcantes da sua vida, em qual fase estaria a maioria deles: na infância, na adolescência, na vida adulta ou na terceira idade?
De acordo com estudo feito recentemente pelo psicólogo Steve Janssen, nós guardamos muito mais memórias entre os 10 e 20 anos do que em outras fases da vida. Assim, lembranças desta época tendem a ser mais marcantes, significativas e influentes. Esse fenômeno é conhecido como reminiscence bump, ou seja, “elevação de lembranças” e foi objeto de vários estudos psicológicos contemporâneos. 
Talvez isso explique a minha paixão por um determinado período de minha vida, compreendido ali entre o final de 1986 e início de 1989, época em que vivenciei momentos inesquecíveis num cantinho aprazível do Rio de Janeiro: na vila militar do Leme. Foram apenas três anos, mas na adolescência tudo é muito intenso. Afinal, é quando começamos a experimentar o mundo fora de casa: primeiro beijo, primeira paixão, primeiros conflitos, laços de amizades, afinidades, gosto musical e por aí vai. Não é à toa que é comum uma década reviver a moda de duas décadas anteriores, como agora, por exemplo, em que, no começo dos anos 2000, experimentamos um “revival” dos anos 80. Seja na música, seja na moda, o fato é que as pessoas que estão agora na faixa dos 40 anos, ou seja, na meia-idade, começam a fazer um balanço de suas vidas e tendem a se lembrar dos momentos em que foram mais felizes, geralmente na fase da adolescência, que, para os quarentões de hoje, se deu na década de 80.
O fato é que todas as fases da vida, assim como as estações do ano, têm seus encantos. Mas é indiscutível que determinadas épocas parecem perdurar com mais vivacidade em nossos pensamentos. E não há dúvida de que foi no Leme que vivi meus momentos mais sedutores.
Guardo, na memória, vários desses episódios encantados, protagonizados principalmente em pontos próximos à orla. Lembro-me do lugar como cenário para um encontro no começo de um namoro proibido, com beijos intermináveis, trilha sonora e fogos de artifício num réveillon inesquecível. Recordo-me também das frequentes festinhas que aconteciam na vila, onde rolava a paquera e dançávamos animados ao som de hits escolhidos, a dedo, pelo meu primo mais velho, que, com sua acuidade musical, já dava seus primeiros passos como DJ.
E eu contava as horas para que chegasse logo o período de férias e pudesse passar alguns dias ali na vila, na casa dos meus tios paternos. De manhã, íamos à praia ou à piscina do Centro de Estudos de Pessoal – CEP, que para nós, adolescentes, funcionava mais como um clube do que como um quartel. Depois, subíamos e descíamos, a pé, o Forte Duque de Caxias sem que nos faltasse fôlego. Saíamos da vila, atravessávamos a rua, andávamos na areia e jogávamos vôlei sentindo a maresia no rosto. Naquelas noites quentes, bastava o cheiro terroso das amendoeiras e o barulho do mar batendo nas pedras para transformar um simples passeio pelo Caminho do Pescador num momento ímpar.
E foi numa das minhas visitas ao Leme que conheci meu amor proibido de adolescência, um gaúcho em terras cariocas, sem saber que, por troça do destino, iríamos nos reencontrar, 17 anos depois, imbuídos do mesmo fervor dos tempos de puberdade, mas separados por 1.600 km de distância. Eu no Rio de Janeiro e ele no interior do Rio Grande do Sul.
Atualmente, casados há quase oito anos e com uma filha gaúcha prestes a completar seis anos, não poderíamos deixar de estar presentes no I Encontrão do Leme/RJ, que, para nós, foi uma oportunidade única de rever grandes amigos e voltar num tempo memorável que compõe um dos capítulos mais importantes de nossa história. E não importa a idade. Continuo certa de que aquele foi o melhor tempo de nossas vidas.
Mas, ainda hoje, um fato inusitado acontece: no verão ou em dias quentes, andando pelas ruas, às vezes sinto um cheiro que parece emanar da terra, mas que vem de árvores altas, de copas amplas, impregnando o ambiente com seu teor de resina, que não sei se é do fruto, da folha ou do tronco, mas que, imediatamente, reconheço. É um aroma ao mesmo tempo acre, tenaz e selvagem exalado pelas amendoeiras. Aspirá-lo é como voltar ao Leme de outrora numa viagem de sensações e evocações que me remetem às melhores memórias de minha adolescência.

Janeiro/2015 

Carioca, radicada em São Luiz Gonzaga; professora e revisora de textos; pós-graduada pela UERJ, com Especialização em Língua Portuguesa; bacharela e licenciada em LETRAS (Português/Literaturas), formada pela UFRJ. 

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