24/07/2015 às 10:42
Os pequenos jornaleiros

Passeando pela Praça Tamandaré, no centro de Rio Grande, deparei-me com uma homenagem à imprensa realmente singular. É a escultura de um pequeno jornaleiro deitado, junto aos jornais que deveria vender, a dizer que estaria descansando ou dormindo, como mostro na foto. Um belo trabalho do falecido escultor rio-grandino Érico Gobbi, autor de esculturas espalhadas por esta cidade e em diversos municípios gaúchos.
Aí me veio a lembrança de uma pequena escultura de um menino maltrapilho, com chapéu de abas rotas, que o jornalista José Grisolia, fundador de A NOTICIA, mantinha na sua mesa de trabalho, em lugar de destaque. Ele gostava muito dessa cópia do monumento erguido pelo escultor Anísio Mota, que eu costumava admirar quando passava pela Rua 7 de Setembro, no centro do Rio de Janeiro. A obra homenageia os pobres meninos de rua que vendiam jornais gritando as notícias do dia. Eles liam alto as manchetes, na esperança de que os transeuntes comprassem aquela edição.
Esses pequenos jornaleiros levavam a notícia para a frente dos cafés, cinemas e cruzamentos das ruas mais movimentadas. Dotados de uma voz potente, tomavam as ruas nas primeiras horas da manhã, gritando as manchetes dos jornais. Espertos e comunicativos, eles foram homenageados pela imprensa do início dos anos 30, com a escultura de Anísio Mota, a dizer o quanto eles tinham valia no processo de distribuição da notícia.
José Grisolia gostava dessa escultura por reverenciar os meninos pobres do seu tempo, esse mesmo tempo em que ele fez surgir o seu jornal, que na próxima quarta-feira, 29 de julho, estará completando 81 anos. Diariamente, o velho jornalista olhava para a escultura do menino maltrapilho e se identificava com ele, recordando daqueles difíceis dias em que era preciso fazer o pregão das primeiras edições que precisava vender pela cidade. E recordaria do carinho com que dona Marieta tratava os pequenos jornaleiros, acordando cedinho, na madrugada, para servir-lhes um reforçado café.
Pensei em tudo isso ao admirar a escultura do jornaleiro deitado na praça de Rio Grande, que teria sido inspirada na foto favorita do americano Lou Turofsky, mostrando um pequeno jornaleiro exausto na escadaria de um edifício. Era um ângulo que denunciava a difícil vida dos garotos que vendiam jornais para ajudar suas famílias, no nosso caso entre a mídia nascente e um Brasil ainda rural.
Anônimos vendedores, os jornaleiros de antanho, geralmente crianças, foram os propagadores de notícias, distribuíndo os jornais pelas ruas da cidade, ícones de um tempo em que a comunicação engatinhava. Neste primeiro aniversário de A NOTICIA em que me vejo longe das homenagens, após mais de 30 anos, parabenizo todos os meus ex-colegas e faço um tributo aos pequenos jornaleiros que percorreram e ainda percorrem as ruas de São Luiz Gonzaga, levando o jornal fundado por um jornalista que também foi jornaleiro. A escultura na sua mesa retratava ele, um menino pobre que começou a vida vendendo jornais.
 

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