31/07/2015 às 09:15
E continua a besteiragem nacional

A editora Agir teve a boa ideia de relançar, em bela edição, os três volumes do "Febeapá" (Festival de Besteiras que Assola o País), de Sergio Porto, o Stanislaw Ponte Preta (na foto), um humorista brilhante que começava a correr o risco do esquecimento. É o que estou relendo agora, para evocar o adolescente de Uruguaiana que não saía da biblioteca, absorto com o texto cheio de mordacidade e humor desse autor carioca que não perdoava as mazelas provocadas pela crise política, moral e ética do seu tempo. Olhando em volta, diante da atual situação reinante no país, me pergunto o que Sergio Porto não faria com sua pena corrosiva que divertia o povo e irritava os poderosos.
O humorista e jornalista Jaguar escreveu, nestes dias, que jamais se viu tanta mentira no Brasil, como nestes tempos de Mensalão e Petrolão. Ou será que havia, mas os jornais não noticiavam porque ainda não tinham inventado o jornalismo investigativo? Parafraseando a obra genial de Sergio Porto, Jaguar acha que é tempo de criar o Festival de Mentiras que Assola o País, para que, ao menos, a gente possa se divertir um pouco com as inverdades dos mandanetes, rir de nós mesmos, que mal sabemos votar e, pelo jeito, ainda vamos marchar um bocado até aprender.
Hoje, basta olhar os jornais, entrar no twitter ou facebook, para constatar que o Febeapá continua mais ativo do que nunca. Os três volumes foram publicados entre 1964 e 1968 e atacavam a ditadura militar. Ora, sabemos que o festival de sandices não é de uso privativo de regimes de generais. Diante do que presenciamos hoje, podemos acreditar que, nas últimas décadas, Sergio Porto juntaria muito material para rechear as páginas de livros e mais livros do Febeapá. Pena que morreu ainda novo, aos 45 anos, de um fulminante ataque cardíaco em 30 de setembro de 1968, cerca de dois meses antes da decretação do tenebroso AI-5.
A frase que abre o primeiro volume é, ainda hoje, a mais pura verdade: “Ou o Brasil acaba com a besteira ou a besteira acaba com o Brasil”. São casos absurdos que têm de fazer rir para não chorar, como impedir que a Alemanha Oriental tocasse o seu hino durante um jogo de futebol, por ser um ato subversivo, ou uma batida policial no teatro para prender o tal do Sófocles, que escreveu essa peça suja cheia de sacanagem. Ou ainda a tentativa de se instituir o “Dia do Pobre”, para homenagear essa grande parcela da população.
E Sergio Porto foi juntando casos hilários, como o de um vereador de Mafra (SC), que queria pedir em plenário que se fabricassem fósforos de duas cabeças para economizar o pauzinho. E nem o nosso Estado escapou, com um prefeito de certa cidade gaúcha que inaugurou, com toda a pompa, bebedouros públicos para cavalos e deu o primeiro gole com as mãos em concha, dizendo “Tá inaugurado, tchê!”. E todos nós querendo saber que infeliz cidade é essa.
A bobageira nacional está nestes três valiosos volumes, ilustrados por Jaguar e com prefácio de Millôr Fernandes, com risíveis incontinências verbais, através do linguajar maroto e da escrita fluída de Sergio Porto. São o que hoje chamamos pérolas, inclusive mentiras impressionantes, num verdadeiro compêndio de asneiras que rolaram (e ainda rolam) no universo brasileiro. Junto das asneiras, há umas crônicas igualmente engraçadas, com participação de Tia Zulmira, Primo Altamirando e outros personagens de Sergio Porto.
Um valioso compêndio para fazer seu pai rir se você presenteá-lo no dia dele, neste agosto. Basta encomendá-lo na livraria Magia das Letras, com a Rose Della Flora. Por fim, conto mais esta asneira: a peça "Liberdade, Liberdade" estreou em Belo Horizonte e a Censura cortou apenas a palavra prostituta, substituindo-a pela expressão "mulher de vida fácil". Observaria Sergio Porto que “isso, na atual conjuntura, nos parece um tanto difícil. Ninguém mais tá levando vida fácil”. Tal e qual como hoje, com muito mais besteiragem.
 

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