10/08/2015 às 17:18
O bom de agosto

Sempre andei na contramão para dizer que agosto não é um mês de azar. Sei, este mês é cheio de acontecimentos desastrosos, mas não mais do que os outros, convenhamos. Agora, a imprensa já adianta que o inferno astral da presidente Dilma vai ocorrer até o final do mês. O que esperar disso tudo? Eu diria que o panorama deste enorme país pede uma elegia de longa espera. O certo é que ninguém sabe porque, como e quando agosto começou a ser um mês azarento.

O bom de agosto é a verdade histórica, saber que as mulheres portuguesas não casavam nunca neste mês, época em que os navios das expedições zarpavam à procura de novas terras. Casar em agosto significava ficar só, sem lua-de-mel e, às vezes, até mesmo viúva. Os colonizadores portugueses trouxeram esta crença para o Brasil. Na Alemanha, entretanto, as mulheres não acreditam na superstição. Enquanto que, em muitos países, maio é o mês das noivas, as moças alemãs sonham casar em agosto.

O bom de agosto é desdenhar da crença popular de este ser mês de desgosto. Isso não passa de uma superstição que veio de fora e ganhou grande aceitação entre os brasileiros, principalmente na zona rural do país, em especial no Nordeste, onde o processo de colonização foi homogeneamente português. Mesmo entre os que não acreditam nos azares de agosto, muitos não se casam, não se mudam, não viajam e não fazem negócios neste mês. Diríamos também que muitos não se amam em agosto?

O bom de agosto é que podemos aprender a alcançar respostas para as crenças incômodas que tentam nos imbutir. O que vale é manter a mente aberta para se esquivar do palavreado sério e profundo que vem só de um lado, abrindo espaço para o diálogo de opiniões. Tudo tem sua hora, assim como este sábado é dedicado à poesia, fazendo-nos lembrar que é por aí que começa a ser realizada a verdadeira arte literária. Poetar seria uma forma de driblar os azares de agosto.

O bom de agosto é que é tempo de homenagear o nosso pai, dizer-lhe que lembramos de sua vigília de amor e proteção. Um tributo para se repetir em cada dia, cada mês, cada ano. Em agosto, apelamos para os labirintos da memória, para imaginar que teremos sonhos achados em setembro, o mês mais esperado, que está ali no dobrar da esquina da esperança. Aliás, em agosto, um punhado de boas reminiscências a partir da infância pode nos levar a montar o que seriam as memórias da liberdade, para nossos filhos saberem, nossos netos sonharem e os amigos imaginarem.

O bom de agosto é que, nesta fase da vida, ultrapassando metade do caminho, vejo em cada mês um feixe de novidades que jamais se repetem, balançando a cantiga da existência, abrindo janelas para o novo, adentrando em quintais perdidos de uma Uruguaiana que somente persiste na memória. Pensamos no tempo que se esvai depressa demais e mal nos damos conta que a melhor maneira de aproveitar tudo é sentir plenamente o que vem da vida. E lá vamos nós, deixando-nos levar pela luz da estrela de cada manhã.

Enfim, o bom de agosto é que atravessamos este mês com a certeza de que chegaremos incólumes nas franjas de setembro, após ultrapassar matas fechadas, glebas distantes, dunas inconstantes, desertos traiçoeiros, o pampa de horizonte reto, entre estranhas tumbas, palácios abandonados, gurus loucos e assustadoras tormentas. E no final do ano, aliviados, vamos divisar o sonhado amor à liberdade, com o direito de cada um ser o que é.

Em agosto, bem lembro, me diziam que o mundo terminava ali na frente. Tudo para que eu não fugisse pela janela sempre aberta, segurando um verso, à espera da aurora, no sonho de não me perder.
 

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