14/08/2015 às 09:07
Escritores e bichos

Escritor que se preza busca ficar sozinho com seus fantasmas, havendo os que insistem na companhia de bichos de estimação, talvez para não se sentirem totalmente abandonados. Eu bem que tento amestrar a minha cachorra Laila, uma Lhasa de dois anos, que mal me vê abrir o notebook e já começa a latir. Ela só quer ir para a rua e caminhar até ficar com a língua de fora. Só depois disso, quando se entrega ao descanso, é que consigo escrever.
Os cães, assim como os gatos, possuem certas particularidades. São animais de companhia para idosos e crianças, guia de cegos, de quem gosta de animais. Confinados em apartamentos, cultivam natural ânsia de liberdade e ficam felizes quando fazem seu passeio de cada dia. E quando chove, restam acabrunhados, mas sabendo que não podem sair, se entregando mais às brincadeiras ou ao sono mais demorado.
O escritor William Faulkner tinha dois cães malhados, de bom porte, que ficavam perto quando ele escrevia. Assim, cercados por animais, ele escreveu “O Som e a Fúria” e outras grandes obras. Mark Twain tinha um gatinho que levava para cima e para baixo, inclusive dentro de uma sacola. Era companhia constante do escritor conhecido pelos romances “As Aventuras de Tom Sawyer” e “Huckleberry Finn”.
Kurt Vonnegut gostava de correr pela praia com seu cachorrinho “Pumpkin”. Ele escreveu “Matadouro 5” (1969). Tennessee Williams não ficava longe de um gatinho preto chamado “Sabbath”. O bichano ficava quieto aos pés do escritor, dando-lhe condições de produzir peças famosas como “Gata em teto de zinco quente” e “Um bonde chamado Desejo”.
Ernest Hemingway (foto) criava vários gatos, que viviam ao seu redor, inclusive em cima da mesa de trabalho. Assim ele escreveu “O velho e o mar”, que lhe deu o Nobel de Literatura, em 1954. A nossa Clarice Lispector gostava muito do seu cachorro “Ulisses”, de grande porte, que vivia no seu apartamento, no Rio de Janeiro. O cão não latia e era uma companhia constante da autora de “A hora da estrela”. J. K. Rowling, a autora da saga Harry Potter, adotou uma cachorra sem raça definida em um abrigo de animais, em Londres. A cadela ganhou o nome de “Sapphire” e virou companhia em caminhadas ou quando está escrevendo.
São autores e seus amáveis bichos, que se entendiam bem, gerando boas histórias, como eles contariam depois, com graça e emoção. Seus mascotes, presumo, não tinham ciúme do material de trabalho, como é o caso da Laila e meu notebook. Algum dia, quando ela se aninhar aos meus pés, obediente, talvez eu possa dizer que estarei pronto para escrever algo que valha a pena, como os donos dos bichos citados aqui. Até lá, conto com a chuva ocasional, o cansaço pós-caminhada e as madrugadas insones.

 

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O bebedouro de animais

Sobre a coluna que enfocou a nova edição do Festival de Besteiras que assola o País (Febeapá), do Stanislaw Ponte Preta, o amigo João Baptista Santos da Silva, do Jornal das Missões, de Santo Angelo, informa a identidade do prefeito gaúcho que inaugurou um bebedouro de animais, citado no livro. O alcaide era de Giruá e chamava-se Miguel Sostokiewicz, conhecido como Miguelão. Ele também foi vereador em Santo Ângelo, líder político em Campina das Missões e suplente de deputado estadual, nas décadas de 50 ou 60.

Conta o João Baptista que “Miguelão teria inaugurado um bebedouro para animais, que na época praticamente todas as cidades tinham. Durante a cerimônia, ele discursou: “Povo giruaense, com orgulho entrego este bebedouro para animais. E para mostar toda minha alegria, serei o primeiro a beber".
Ainda o João Baptista: “Pelo sim ou pelo não, anos mais tarde, numa campanha política, passando por Giruá, onde o Miguelão era dono de hotel e churrascaria, perguntei-lhe sobre a veracidade do fato, tendo ele respondido apenas com um sorriso e balbuciando "deixa isso pra lá". Mas justiça se faça: Miguelão foi um cara autêntico, simples, buenacho e jamais praticou nenhuma ação das tantas condenáveis que alguns políticos andam fazendo”.
 

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