21/08/2015 às 14:33
Toda poesia para nós

O mundo não seria assim tão ruim se houvesse mais poesia em tudo que se movimenta, principalmente nas relações humanas. Entre haikais e canções, poemas concretos e líricos, os poetas seriam, hoje, os menestréis que tentam, ao menos, nos divertir e emocionar, para que a vida tenha algum sentido e possa valer mais a pena. Penso assim ao ler “Toda poesia”, de Paulo Leminski, cuja obra conheci nos anos 70. Este novo volume, com o selo da Companhia das Letras, contém a trajetória poética completa do autor curitibano e revela por que é um dos poetas brasileiros mais lidos das últimas décadas. Morto prematuramente, o “Polaco” produzia uma lírica que florescia entre os jovens de vinte e poucos anos da chamada “geração mimeógrafo”.
Para Leminski, a poesia era sempre necessária e quem o seguia sabia disso, como os poetas Luiz de Miranda, Ney Duclós e outros amigos que, entre jovens jornalistas e artistas, faziam versos numa Uruguaiana incapaz de rir e que parecia detestá-los, principalmente quando ocupavam uma mesa do Bar do Dema para declamar seus últimos trabalhos forjados em noites indormidas. Na terra de Alceu Wamosy, eles teimaram e depois sumiram de vista, como somem os que ousam anunciar um novo tempo em que até se morria de amor. Sagazes e divertidos, queriam deixar a vida como deixavam o tédio.
E lá se iam eles, driblando chacotas e enxergando o lado cômico de qualquer coisa, ganhando olhares ariscos de normalistas em flor, que eram surpreendidas por serenatas sob um luar de longos suspiros. Até nas calçadas, com trocadilhos na agulha, montávamos sonetos, como bem fazia Leminski na sua Curitiba de haréns escondidos. Bem ou mal, éramos cavaleiros que divertiam e pensavam incendiar corações e motivar gemidos em lábios frementes. Poetas e loucos no desvario dos anos juvenis, pensando serem astros no dobrar da esquina, onde a temida solidão fazia oferenda.
Hoje, os poetas pululam por aí, também seguindo o imortal Leminski, como vemos em São Luiz Gonzaga e em outras cidades de terra vermelha, na guarida dos versos que se revelam essenciais para o homem respirar com dignidade. É profissão de fé, como queriam Olavo Bilac e tantos sonhadores anônimos e bem faz Luiz de Miranda, que porfia sozinho, entre tresloucadas ideias e taças de vinho do povo, na dor de doentias despedidas. Sim, hoje os poetas, sempre pioneiros dos sentidos, ainda querem mudar o mundo, com artifícios que só eles têm contra a incompreensão e o desamor.
Sergio Faraco contou que, aí pelos anos 80, um cidadão entrou numa livraria de Porto Alegre e rondava as estantes, sem jeito, olhando para os lados. Quando o funcionário quis saber o que desejava, ele se assustou, gaguejou e custou a dizer que procurava um livro de Mario Quintana. E acrescentou: “Não é pra mim, é pra minha filha”. Era mais um episódio do acanhamento masculino diante da poesia, o que hoje soa ridículo, ainda mais tratando-se de Quintana, que todos adoram ler e citar, inclusive este colunista.
Falando em citar, vez e outra, caminhando pelas ruas de Rio Grande, vejo-me às vezes declamando mentalmente poemas que permanecem nos escaninhos da memória, como “Duas almas”, de Alceu Wamosy; “As pombas”, de Raimundo Correia; “Ismália”, de Alphonsus de Guimarães; “Canção do exílio”, de Gonçalves Dias, e trechos da poesia satírica e erótica de Gregório de Matos, alcunhado adequadamente de “Boca do Inferno”. Ah, claro, para quem ainda duvida ser a poesia essencial, eu recito aquele poeminha danado do Quintana, vaticinando que “eles passarão, eu passarinho”.
 

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