04/09/2015 às 15:17
Réquiem para o pequeno Aylan

Em meio ao inferno astral que vive o Brasil, com o Rio Grande do Sul metido numa infindável rapa de tacho graças à irresponsabilidade de diversos governantes, nada é tão triste e lancinante do que olhar para a TV e ver milhares de pessoas de diversas nacionalidades se lançando ao mar, no desespero de fugir da violência de conflitos armados.
E nessa empreitada desumana, entre homens e mulheres há muitas crianças, seres inocentes como o menino que nesta semana morreu no mar, numa foto que chocou o mundo. Seu corpinho inerte na areia, levemente de lado, como se estivesse dormindo, é uma acusação silenciosa a todos nós. Uma foto que faz doer a consciência do mundo.
Na verdade, todos os dias vemos imagens lancinantes que rodam o mundo retratando o desespero dessas travessias pela sobrevivência. E entre essas fotos, a do menino morto na areia simboliza bem a tragédia dos refugiados. Tal imagem, de um fotógrafo da agência Reuters, mostra o menino morto por afogamento após tentativa fracassada de navegar para a ilha grega de Kos. O irmão de cinco anos e a mãe também morreram, no desfecho inglório para o mundo.
O garotinho foi encontrado na costa da cidade de Bodrum, na Turquia, no dia 2 de setembro, por oficiais da guarda costeira, que mal puderam conter o choro. Tinha três anos e se chamava Aylan al-Kurdi. Um pequeno refugiado da barbárie humana, como tantos outros que morrem nas águas do Mediterrâneo, sob os olhares estarrecidos dos povos do planeta.
Realmente tocante, essa imagem ganhou destaque na imprensa do mundo. O jornal britânico “The Independent” ressaltou que “fotos como essa servem como lembrete austero aos líderes europeus que tentam impedir que os refugiados se estabeleçam no continente, enquanto um número crescente de pessoas morrem no desespero de fugir da perseguição e alcançar a segurança”.
Com muita propriedade, esse jornal inglês indaga: "Se imagens como essa não quebrarem a resistência dos europeus, o que mudará?". Sabemos que hoje, na banalização da violência, é muito fácil esquecer a realidade da situação de desespero enfrentada por milhares de refugiados. Aí, a imagem do pequeno corpo sem vida não servirá para nada? Não merecerá uma prece de todos nós?
Só neste ano, mais de 2.500 pessoas morreram tentando cruzar o Mediterrâneo. Buscando alertar sobre a perda de vidas humanas, ativistas do Migrante Report, uma organização não-governamental com sede em Malta, também publicou fotos de crianças mortas em naufrágios, sob o título "As imagens que precisam ser vistas", para comover a opinião pública internacional.
Como não se comover com a crueza de tal foto? Como não agir diante dessa imagem? Aylan, o menino que morreu no mar, como tantos outros no triste anonimato de um mundo convulsionado, será logo esquecido? Não será um corpinho na areia a emparedar nossos corações? Enfim, a breve vida de Aylan, interrompida criminosamente pela estúpida geografia política, não estará nos dizendo que a humanidade realmente não tem salvação?
 

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