22/09/2015 às 10:17
Nas águas dos farrapos

Numa mesa do Mercado Público de Rio Grande, olhando a calmaria da Lagoa dos Patos à minha frente, revi o que sempre achei impressionante na Guerra dos Farrapos: a saga dos lanchões de Garibaldi no capítulo que foi chamado de Estratégia das Águas. Na imensidão dessa lagoa histórica, que engana como sendo o mar para os desavisados, houve uma ação que mais parecia coisa de piratas ingleses saídos daqueles filmes de capa e espada da Metro. Esse que foi um dos lances de combate mais geniais da história aconteceu aqui mesmo, nas águas dessa lagoa que agora contemplo, entre um e outro gole de um bom tinto.

Penso no atalho para o mar engendrado na mais longa guerra já registrada no Brasil, revendo a cena daquelas lanchas atravessando os campos úmidos do pampa em meio a chuva e vento, na direção às águas, numa imagem realmente fantástica, reconstituída pela magia do cinema gaúcho. Os imperiais tinham o controle das águas, do Guaíba até a Barra de Rio Grande, na Lagoa dos Patos. Os farrapos, ousados e bravos, queriam navegar pelo oceano, tomar Laguna, em Santa Catarina, e fundar a República Juliana. Os homens de Garibaldi e David Canabarro montaram um estaleiro e cortaram árvores em Camaquã, para construir os lanchões “Seival” e “Farroupilha”.

Erguer essas grandes lanchas foi um trabalho colossal, com marinheiros arregimentados até no Uruguai, como narra o amigo Tabajara Ruas, no romance “Os varões assinalados”. Havia exímios carpinteiros entre os rebeldes, que por esse tempo descansaram suas garruchas, pistolas, espadas e lanças. Esses loucos que faziam lanchas - como diziam, jocosamente, os moradores que acompanhavam a empreitada – ainda construíram seis pares de rodas imensas revestidas de couro cru, para rodar as embarcações. Cem juntas de bois foram requisitadas junto aos fazendeiros e atreladas aos lanchões, para levá-los até a barra do Rio Tramandaí, em direção ao mar, motivando a cena que citei acima.

Os pescadores e outros homens que vivem do mar, do rio e desta lagoa a meus pés sabem bem do estrago que faz aquele vento chamado de Velho Carpinteiro. E essa força da natureza, em pleno inverno, foi logo fazendo um estrago medonho em cima do lanchão “Farroupilha”, que tinha a bordo Garibaldi e mais 14 soldados. O lanchão, fustigado pela violenta ventania, acabou indo a pique, mas todos salvaram-se nadando até o “Seival”. Após reparos no barco avariado, os rebeldes, aguentando o danado enjoo sobre as águas, rumaram até Laguna, onde Garibaldi comandou ataque que surpreendeu as forças imperiais.

A estratégia sobre as águas pode não ter sido o que planejavam os rebeldes, mas fez-se um dos capítulos mais impressionantes da história bélica deste país, com a excursão terrestre dos barcos ao longo de 80 quilômetros, que não canso de rever em páginas dos livros e nas telas do cinema. Bem sabem disso aqueles que veneram o 20 de setembro e os que frequentam os CTGs, que existem em praticamente todas as cidades gaúchas e inclusive em outros Estados. Nesta semana de danças, música, churrasco e missa crioula, todos os caminhos levam a essas entidades, muito especialmente ao CTG Galpão de Estância e ao DN Carlos Bastos do Prado, que eu gostava de frequentar e onde me sentia mais gaúcho, além de bem irmanado no companheirismo e na amizade.

Se esta guerra separatista que recordamos agora foi deflagrada por causas político-econômicas, como os altos impostos sobre o charque, o pagamento de dívidas do governo central na província do Rio Grande, o que dizer destes tempos atuais, em que o governo da Corte se repete com tantos impostos, indignando os gaúchos, centralizando ainda mais as decisões que vão contra ideais populares? Para abordar essa guerra, não tem como evitar falar de política, da nossa gente, dos valores e costumes que impregnam na nossa pele, no sangue, na alma campesina. Resta-me fazer um brinde diante da lagoa que se fez histórica pela ousadia do separatismo e hoje evoca esperas e nega o esquecimento.

 

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