09/10/2015 às 14:00
“Levanta o traseiro dessa cadeira!”

Essa frase aí foi dita por rudes personagens criados por Ernest Hemingway, que não gostava muito de sentar e costumava escrever em pé. Lembrei disso ao ler uma reportagem da jornalista Carolina Melo, na Veja Digital, sobre os benefícios de ficar em pé duas horas por dia. Pois saiba que ficar em pé ajuda o corpo a manter-se ereto, faz bem à silhueta, previne doenças, melhora o desempenho intelectual e a memória.

É isso que diz o mais recente estudo sobre o assunto, publicado na revista científica “American Journal of Preventive Medicine”. Os pesquisadores compararam os hábitos de 12?mil pessoas com idade entre 37 e 78 anos, ao longo de 12 anos. Elas ficavam sentadas por cerca de sete horas. Muitas só deixavam a cadeira para realizar atividades essenciais, como ir ao banheiro e fazer as refeições.

Outras pessoas tinham o hábito de se levantar para executar pequenas tarefas no próprio escritório. A conclusão: as pessoas que se mexiam menos correram um risco 30% maior de morrer em decorrência de doenças associadas ao sedentarismo, como as afecções cardiovasculares, em relação aos outros voluntários do estudo.

O que se fala aqui são de benefícios associados a movimentos extremamente rotineiros e comedidos, banais. É levantar-se para atender o celular. É dar alguns passos até a mesa do colega ao lado em vez de mandar uma mensagem pelo celular ou e-mail. É sair da mesa para tomar um café na máquina ali pertinho, como este colunista fazia na redação de A NOTICIA, junto com os colegas, que devem se motivar ao ler este texto.

Anota Carolina Melo que, em junho, a revista científica “British Journal of Sports Medicine” publicou um estudo que ditava o tempo ideal para manter-se em pé em prol da saúde: duas horas por dia. Isso representa, ao longo de nove horas de trabalho, apenas 13 minutos por hora. O ato de ficar em pé, e por tão pouco tempo, é suficiente para beneficiar várias estruturas do corpo, inclusive melhorando o desempenho cardiovascular.

Depois de duas horas, o corpo ereto queima 20% mais calorias em comparação ao sentado, independentemente de o tempo ser corrido ou fracionado. Diz o fisiologista Paulo Zogaib, da Universidade Federal de São Paulo: "Pequenos gestos feitos em pé podem ter mais efeito no gasto calórico do que uma caminhada".

Na cola das descobertas médicas, surgem os primeiros recursos para estimular a postura ereta na rotina diária. O Apple Watch, o relógio da Apple, lançado em abril deste ano, tem um sistema para contabilizar o tempo que o usuário permanece em pé. Sim, apenas em pé. A ferramenta emite um alarme que avisa quando se está prestes a permanecer sentado por uma hora.

Há sinais de mudança também no mundo corporativo. Empresas de tecnologia, como o Facebook e o Google, começam a adotar mesas adaptadas para estimular a posição ereta entre seus funcionários. Batizadas de standing desks (mesas para ficar em pé, em tradução livre), elas podem ter a altura regulada de modo a ser possível trabalhar em pé. Na Escandinávia, cerca de 90% dos escritórios já oferecem essa opção.

Intuitivamente, Ernest Hemingway dizia sentir-se mais disposto e concentrado escrevendo em pé, um hábito que adquiriu desde o começo, como vemos na foto de Torre Johnson. Abro a minha edição de “Papa Hemingway”, de A.E. Hotchner, e leio o que o autor de “O velho e o mar” diz: “Gosto de escrever em pé, para diminuir a velha barriga. Além disso, sinto uma maior vitalidade quando estou apoiado sobre os pés, com a máquina de escrever na altura do tórax".

Na verdade, o texto cru de Hemingway também mandava um “levanta a bunda dessa cadeira”, para a gente não esquecer que veio do homo erectus. A evolução é a prova irrefutável de que, embora o ser humano moderno goste de conforto, ficar de pé por alguns minutos tem um grande impacto na sua sobrevivência. Portanto, que tal levantar a bunda de onde você está?
 

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