23/10/2015 às 14:54
Tanta água que nos cerca

Contra água e vento não há remos que sirvam. Lembro desse provérbio dos tempos de juventude em Uruguaiana, quando o Rio Uruguai invadia as casas da zona ribeirinha. Eu ia olhar de perto o fenômeno das águas, que iam lambendo as ruas, avançando até meia quadra da casa do amigo Cao. Assustado, ele dizia não dormir à noite, pelo medo de acordar com a cama cercada pela água. Pois é tanta água a me cercar desde a infância e até agora, na maturidade, com o alagamento das ruas centrais da cidade de Rio Grande, deixando os moradores em alerta.

Mesmo que não chova, é tanta água num vai e vem em função dos ventos que à noite são uivantes e assustam os incautos. Esses ventos tenebrosos – que dizem transportar as almas que morreram no mar - provocam mais alagamentos porque fazem aumentar o nível da Lagoa dos Patos, provocando a descida das águas da região metropolitana de Porto Alegre. Aí sofrem principalmente os pobres, na orla do Município, com a água invadindo suas casas, inutilizando os móveis, os poucos pertences, diminuindo a parca esperança para tocar a vida do jeito que os céus permitem.

Em função do vento fazendo a água subir, os esgotos pluviais e bueiros desta cidade, que serviriam para escoar a chuva, acabam recebendo o retorno da enchente. Isso, como eu vejo agora pela primeira vez, alaga as ruas mais baixas da cidade, complica o trânsito, ameaça ilhas habitadas, diminui o transporte hidroviário, origina o caos neste outubro de tanta água. Dizem que é coisa de El Niño, agora em proporção maior nesta região e no entorno do Litoral Sul.

Rio Grande, denominada Cidade do Mar, situa-se num terreno plano, propício para alagamentos. As águas costumam avançar facilmente quando há uma enchente, invadindo quadras e mais quadras. Depois, retrocedem com a mesma normalidade ditada pela natureza, num movimento que parece infinito e circulante. A população parece acostumada, olhando as águas invasoras como se fossem algo fixado na paisagem. E os pobres, com olhares tristes, se demoram a mirar os locais que abrigavam suas moradias. São os mesmos olhares dos desabrigados das enchentes da minha infância à beira do Rio Uruguai.

Recentemente, assisti a um vídeo da Dumbo Underwater, simulando cidades invadidas pelas águas do mar. Depois, com um pouquinho de agonia, fui até a janela e fiquei olhando os alagamentos próximos, para o lado onde está a Lagoa dos Patos, para o horizonte que nos deixa ver o mar, a praia do Cassino, tão perto dos rio-grandinos.

Inspirado nas mudanças climáticas que o planeta vem sofrendo nas últimas décadas, o projeto Dumbo chama atenção sobre o aumento do nível do mar. A proposta é trazer a sensação de se estar em uma cidade, no caso Nova York, nos EUA, invadida pelas águas do mar. A sensação é realmente inquietante, mais para alguém tão perto do mar, como este escriba.

Tanta água que nos cerca e ficamos matutando de como isso sempre ocorre, por décadas, sem que as autoridades façam algo para minorar a vida dos ribeirinhos, dos que pouco têm e ficam com quase nada, isolados da mais tênue esperança. É a natureza insondável a ditar regras de vida que nunca assimilamos. E esse panorama tampouco deverá mudar, devido aos desmandos e à inércia da gritante mediocridade política do Brasil, assustando os Caos destes tristes tempos.
 

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