30/10/2015 às 09:27
Eu e os outros desgarrados

Aqueles que deixam sua terra natal definem-se como desgarrados, que são aos milhares, como confiro no Facebook, ao procurar amigos da minha Uruguaiana perdidos nos escaninhos do tempo. Graças a essa bendita ferramenta, encontrei o grupo intitulado Uruguaianenses Desgarrados, com apenas 52 membros, mas minhas opções de busca cresceram muito ao dar de cara com Uruguaianenses pelo Mundo, com mais de 4 mil integrantes. Estão ali antigas amizades, conhecidos distantes e amores juvenis.
Como vivi mais tempo em São Luiz Gonzaga do que na minha terra natal, considero-me duplamente deserdado, usando o mouse para teclar o grupo Desgarrados Missioneiros, com 188 membros, em meio a desgarrados são-borjenses, alegretenses, gabrielenses e de outras plagas. Faltou encontrar o grupo dos Desgarrados São-luizenses por Porto Alegre ou pelo mundo. Faltaria união digital entre os conterrâneos de Jayme Caetano Braun e Pedro Ortaça? Onde estão os que saíram de suas casas para estudar fora ou buscar um rumo profissional e nunca mais voltaram?
Procurando aqui e ali, encontrei um texto da blogueira Josie Conti (www.contioutra.com), falando justamente dos desgarrados das gerais. Ela lista coisas que somente pessoas que saíram de sua cidade natal entenderão e que tento resumir aqui. Fora da zona de conforto, você aprende muito sobre a vida e encontra pessoas inesquecíveis, com uma visão mais ampla de diferentes realidades e possibilidades de vida. E na necessidade de tentar coisas novas, podemos viver experiências surpreendentes.
Josie Conti cita a importância em se perder numa cidade que ainda não conhecemos, como ocorre comigo agora, na marítima Rio Grande, em ruas de forte influência portuguesa, por onde transitam quase 200 mil habitantes de variadas origens. É por aí, andando à toa, com um mapa sentimental feito às pressas, que podemos chegar a lugares interessantes que nem imaginávamos encontrar.
Acredita Josie que “todo mundo precisa de um tempo sozinho, e mudanças de cidade podem promover isso. A distância e algum tempo sem as companhias habituais permitem que valorizemos mais a quem gostamos e tenhamos momentos mais construtivos com elas, quando as oportunidades permitem”. Ela ainda ressalta que não há nada como se mudar ou viajar para perceber que, onde quer que esteja, você desenvolverá novos laços afetivos e passará a se preocupar com pessoas diferentes - e elas também se preocuparão com você.
Rever os familiares, os amigos e os velhos cenários é algo indescritível para quem mora fora. E tudo isso faz parte de quem está longe, a entoar aquela canção de Mário Barbará, que finaliza assim: “Faziam planos e nem sabiam que eram felizes / Olhos abertos, o longe é perto, o que vale é o sonho / Sopram ventos desgarrados, carregados de saudade / Viram copos, viram mundos, mas o que foi nunca mais será”.
 

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