06/11/2015 às 13:35
Imprensa não é para agradar a poucos

Por diversas vezes, ao longo de mais de 30 anos, esta coluna denunciou um emaranhado de leis que pretendia amordaçar a imprensa brasileira, limitando a atividade jornalística. Eram ensaios de projetos dúbios que felizmente não vingaram. Agora, nesta semana, o plenário do Senado aprovou um projeto de lei que regulamenta o direito de resposta nos meios de comunicação. O texto segue para sanção da presidente Dilma, que, vale destacar aqui, vem defendendo a liberdade de imprensa desde o seu primeiro mandato.
De autoria do senador Roberto Requião (PMDB-PR), o texto determina o direito de resposta à pessoa (física ou jurídica) ofendida por qualquer reportagem, nota ou notícia “divulgada por veículo de comunicação social, independentemente do meio ou plataforma de distribuição, publicação ou transmissão que utilize, cujo conteúdo atente, ainda que por equívoco de informação, contra a honra, intimidade, reputação, conceito, nome, marca ou imagem”.
De acordo com tal proposta, a resposta poderá ser divulgada, publicada ou transmitida no mesmo espaço, dia da semana e horário da divulgação e deverá ser exercida no prazo de 60 dias. Se o meio de comunicação não atender ao pedido no prazo de sete dias, caberá ação judicial.
Os senadores retiraram do texto uma modificação da Câmara, estabelecendo que a resposta seria divulgada por um representante do meio de comunicação e retomaram o texto original, que permite ao ofendido, no caso de televisão ou rádio, requerer o direito de responder ou fazer a retificação pessoalmente. Desse modo, se ganhar na Justiça o direito de resposta, o ofendido poderá gravar vídeo, áudio ou mesmo ocupar a bancada de um telejornal para ler sua resposta. As informações são da Agência Brasil.
Outra mudança feita pela Câmara dos Deputados foi a inclusão, no Código Penal, de um parágrafo que estabelece que, em casos de calúnia e difamação nos quais foi utilizado meio de comunicação, o ofendido poderá, se assim quiser, usar os mesmos meios para se retratar. Esse trecho foi mantido pelos senadores.
Em nota, a Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e TV (Abert) lamentou o resultado. Para a Abert, a obrigatoriedade de as empresas jornalísticas publicarem a resposta de pessoa ou empresa que se sentir ofendida de forma "gratuita e proporcional" ao conteúdo considerado ofensivo "poderá inviabilizar o trabalho dos veículos de comunicação, limitando a atividade jornalística". Diz ainda a nota que “esta medida pode ter resultados alheios à realidade dos fatos e ameaçar o princípio da liberdade de imprensa. Importante ressaltar que a mídia está sempre disposta a corrigir os erros, por primar pela credibilidade daquilo que veicula”.
Uma boa lição para alguns políticos brasileiros aprenderem a lidar com a liberdade de imprensa foi dada na semana passada, durante uma entrevista coletiva. Na ocasião, um jornalista fazia uma pergunta incômoda ao primeiro-ministro eleito do Canadá, Justin Trudeau. Quando sua claque ameaçou vaiar o repórter, Trudeau interrompeu-a. “Nós temos respeito por jornalistas neste país. Eles fazem perguntas duras, que têm a obrigação de fazer”, disse. Trudeau entende o óbvio – o jornalista apenas fazia seu trabalho.
É isso, senadores e deputados. A imprensa existe para informar a muitos, não para agradar a poucos.
 

Comentários

Nenhum Comentário. Deixe o seu comentário!

Mais posts de Newton Alvim