20/11/2015 às 10:35
Estranho e violento mundo


O desastre ambiental em Mariana e o atentado terrorista em Paris, com lamentáveis vítimas e graves consequências futuras, ganham natural espaço nos jornais e na TV. No entanto, com o passar dos dias, a população passa a ver esses episódios com certa indiferença, fazendo-nos pensar que isso virou uma marca inerente ao ser humano nestes dias em que o mundo se mostra tão estranho e violento.

Os mais atentos ao noticiário notam que não houve a devida divulgação, pelo menos com igual destaque, sobre os ataques terroristas realizados no Líbano e no Iraque, na mesma semana, com dezenas de mortos e feridos. Ora, Beirute, capital libanesa, não tem nada de parisiense, assim como Bagdá. É o velho maniqueísmo dominando a mídia, a achar natural tudo de ruim que ocorre nos países subdesenvolvidos.

Os temidos integrantes do Estado Islâmico querem acabar com Paris, a cidade da boa vida? Quem gosta de cinema lembraria aqui de um filme dos anos 60, chamado “Paris está em chamas?”, sobre a tentativa de Hitler em incendiar a Cidade-Luz, nos estertores da Segunda Guerra Mundial. O comandante nazista queria queimar toda a cidade, com seus monumentos e museus. Isso somente não ocorreu devido à negativa do general alemão em cometer tal crime.

A insanidade, como se vê, está sempre presente em um mundo que não aprende com seus erros. Entre civilização e barbárie, urge revisitar a história, em torno de invasões e genocídios, de política e economia. Muitas feridas jamais cicatrizam, com inevitáveis efeitos colaterais em povos de todo o planeta.

Em relação à avalanche de lama em Mariana, basta dizer que é uma das maiores catástrofes ambientais do Brasil e que certamente vai alterar a vida de milhões de pessoas e animais. A comoção pública que ocorre em Minas Gerais já serviria para reabrir a discussão sobre a regulamentação da mineração no país, dando-se voz às comunidades atingidas, responsabilizando-se devidamente as empresas. Esse é mais um capítulo de o quanto a falta de fiscalização é falha, especialmente quando atinge a população e a dignidade humana.


Reconheça-se que tudo parece perdido no lamaçal da acuada população da cidadezinha de Minas Gerais, com seus mortos e desaparecidos, em meio a vozes de ambientalistas indignados. Aqui registro o impressionante silêncio da ex-senadora Marina Silva, que eu tinha como uma das mais atentas ambientalistas do país. Perdeu a minha admiração e o meu voto, enquanto as vítimas de Mariana sucumbem e choram, no horrendo circo da vida.

Importa, em Minas, na França e no Oriente Médio, exercitar aquela antiga e bem-vinda capacidade de se indignar contra os erros dos governantes do Brasil e do mundo. Importa não ficarmos anestesiados contra os sentimentos que levam à solidariedade e à compaixão. Quanto à consciência, ah, essa vai martelar, enquanto os abusados e violentos passeiam em volta ou fazem suas vilezas ao abrigo de leis frouxas e falta de reação.

Enquanto a memória, implacável, não dá trégua, dizemos o quanto somos falíveis. Importa mostrar que nos incomodamos pelos outros, que realmente nos importamos com o sofrimento alheio, com aqueles que não sabem o que é viver, jogados nos tristes atalhos do desafio de sobreviver. Importa não adiar tal postura, na ilusão de que temos todo o tempo para nos redimir.
 

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