04/08/2017 às 18:07
IHG promove evento para abordar a “Música nas Missões, ontem e hoje”
IHG promove evento para abordar a “Música nas Missões, ontem e hoje”
Público que prestigiou o evento

 O Instituto Histórico e Geográfico proporcionou à comunidade, quinta-feira à noite, na Sala Ana Petrona, o mais importante encontro cultural do ano, abordando o tema “Sons em harmonia: a música nas Missões, ontem e hoje”, organizado pelo Centro de Documentação e Memória dessa instituição, com a participação de Luiz Carlos Borges e Mário Meira.

Com a Sala Ana Petrona lotada, a prof. Ivone Ávila, vice-presidente do IHG, abriu o momento cultural, para informar sobre os fundamentos daquele evento: a necessidade dos moradores de São Luiz Gonzaga aprofundarem mais seus conhecimentos em torno das Missões Jesuíticas que catequizaram os índios guaranis e a vida compartilhada implantada nos 30 Povos instalados em territórios do Paraguai, Argentina e Brasil. 
MÁRIO MEIRA 
A primeira apresentação foi de Mário Meira, com sua harpa. A música interpretada, revelou, foi ouvida nas Missões Jesuíticas. Em seguida, informou sobre a harpa como instrumento musical presente nos 30 Povos, inclusive sendo fabricada na Missão de São João Batista, trabalho conduzido pelo padre Antônio Sepp. Informou sobre os modelos fabricados, o número de cordas e a altura da peça. As harpas são feitas com madeira leve, porque é a que melhor propaga os sons. As harpas destinadas aos índios guaranis eram de menor porte, porque os indígenas tinham baixa estatura. 
ANNA OLIVIA DO NASCIMENTO 
A MÚSICA, ELEMENTO PRIMORDIAL – Destacou a música como elemento primordial à adesão dos índios guaranis ao projeto civilizatório da Companhia de Jesus. “Bastava ensinar uma vez, para os índios terem o domínio de músicas sacras em latim, espanhol, alemão e italiano. “E não só música, todos os conhecimentos transmitidos para o exercício de profissões em vários campos, inclusive o artístico, como escultura, eram dominados com impressionante facilidade. Essa condição, disse Anna Olivia, foi fundamental para os indígenas receberem conteúdos que ampliaram o universo de seus conhecimentos. Além da vida livre nas matas, os indígenas adotaram a cultura europeia, recebida especialmente através da música, que foi o elemento fundamental para o processo civilizatório. 
AS DIFERENÇAS ENTRE MISSÃO E REDUÇÃO - Um tema que foi novidade para boa parte do público presente na Sala Ana Petrona, foi que “Redução” e “Missão”, não são sinônimos, mas estágios no processo evolutivo dos índios. A Redução Jesuítica é o local onde os índios fazem sua conversão, através de um processo educativo através da música e de outras atividades artísticas. Com essa atividade chamada de “reducionista” – das matas para as Reduções, onde eram preparados para o trabalho nas Missões. 
ORGANIZAÇÃO COLETIVA - As Missões Jesuíticas produziam as riquezas e o necessário para seu sustento de forma coletiva. Um exemplo é a cozinha das Missões, com uma área de 200 m2, para preparar as refeições de todos os habitantes do Povoado. 
ANTÔNIO SEPP - Para Anna Olivia, o Padre Antônio Sepp teve importância fundamental na organização das Reduções e Missões Jesuíticas. Ensinava os índios a desenvolver habilidades na fabricação de utilidades necessárias ao seu dia a dia, até  práticas artísticas, como música, escultura, pintura e outras. Para ela, Antônio Sepp teve mais relevância nas Missões do que Sepé Tiarajú, que era o líder na defesa das Missões Jesuíticas, contra os invasores espanhóis e portugueses, que resultou na expulsão dos padres que transmitiam conhecimentos do mundo civilizado europeu aos índios. 
JORGE HIRT PREISS - Anna Olivia ainda destacou a figura de Jorge Hirt Preiss, o historiador e músico que mais pesquisou em torno da música nas Missões nos séculos XVII e XVIII. Fez um livro a respeito e fez seu lançamento durante o 2º Encontro de Estudos Missioneiros em São Luiz Gonzaga, e em apresentação especial no Theatro São Pedro, em Porto Alegre. Preiss conseguiu muitas partituras originais, especialmente de Domenico Zipoli, encontradas na Bolívia. Zipoli compôs aqui músicas eruditas e profanas, mas essa produção musical nada tinha a ver com a cultura local, apenas reproduzia o gosto musical europeu e particularmente das cortes dos estados imperiais da época. Em sua vinda a São Luiz Gonzaga, informou Anna Olivia, ele fez audições com músicas que faziam parte do cotidiano das Missões Jesuíticas. Grandes orquestras sinfônicas europeias apresentaram a obra de Domenico Zipoli, que Anna considera a principal referência da música nas Missões, erudita e clássica por excelência.  
LUIZ CARLOS BORGES 
DESDE CRIANÇA BORGES SABIA QUE SERIA MÚSICO - O festejado músico Luiz Carlos Borges, convidado pelo IHG para fazer um depoimento em torno de sua carreira artística, que já supera 50 anos de militância na música, disse que desde os cinco anos de idade já sabia que seria músico. A informação vinha pelo rádio, o meio de comunicação que seu pai ligava todos os dias, para ouvir músicas caipiras, que ele também gostava. Mas quando o pai movia o dial do rádio e passava por emissora argentinas, o ritmo da música tomava conta de seu ser. Aos poucos se consolidou sua preferência pelos sons que vinham do país vizinho. Uma vez fugiu de casa para ir assistir um evento musical na Província de Corrientes, na Argentina. Não foi difícil achá-lo. Seus irmãos foram buscá-lo, porque sabiam da sua ligação com a música daquele país. Esta é a sua origem emocional, que vinha do ritmo que alcançava todo o seu ser. 
O CONSERVATÓRIO DE MÚSICA - A passagem pelo Conservatório de Música de Lúcia Bremm, nesta cidade, foi fundamental para Luiz Carlos Borges conhecer técnicas musicais, ler partituras e, através dos exercícios, criar intimidade com as rotinas do músico. Lúcia era exigente e sabia muito, contou Luiz Carlos Borges, dizendo que guarda as melhores lembranças da sua professora. Foi a base para criar e compor, disse. Nesse ínterim, um de seus irmãos, que também era músico, fazia aperfeiçoamento com um professor de Santo Ângelo. Ele passou a ir junto, porque queria mais conhecimento e lá também aprendeu muito. 
A DIFÍCIL PASSAGEM PELO RIO DE JANEIRO - Fez Faculdade de Música em Santa Maria, onde formou várias parcerias, ao conhecer militantes da música como ele. Contou sua passagem pelo Rio de Janeiro, onde não encontrava espaço para mostrar seu trabalho, nem nas emissoras de rádio, nem em casas de shows. Nada. Daí teve a ideia de comprar roupa típica do nordeste, com a qual começou a se apresentar nas rádios e casas noturnas. Daí o trabalho apareceu fazendo apresentações com a nossa música. Contou da experiência de se apresentar no exterior, onde gravou um CD, firmando uma linha de conduta musical: conhecer o novo e inspirar-se nele, se for o caso, mas sem abrir mão do instrumento musical que é parte de seu ser: a gaita, que domina com facilidade para conseguir todos os efeitos que deseja. 
RELAÇÕES ARTÍSTICAS - Lembrou a importante relação feita com Apparício Silva Rillo, que lhe permitiu evoluir artisticamente. Também Barbosa Lessa, que conheceu, quando foi buscar apoio ao Musicanto, festival que lançou em Santa Rosa e que continua ativo até hoje. Citou Paixão Cortes e lembrou de Cenair Maicá, que conheceu quando tinha 7 anos e ele o dobro, 14. Estava com seu irmão, Alberto Maicá, mais velho que ele, em uma roda de música. Se tornaram amigos e dele guarda as melhores lembranças. Lembrou que Cenair convidou o argentino Chaloy Jara para ser parceiro musical, o que lhe permitiu aprofundar seu conhecimento da música de fronteira e assim aproximar-se, em sua postura musical, ainda mais do público da nossa região.  Referiu-se a Noel Guarany que, com seu jeito altivo, rompeu o anonimato musical e tornou-se referência no Estado. E Raulito Barbosa, da Argentina, que se tornou amigo pessoal. Ao citar Telmo de Lima Freitas, disse que, para ele, foi uma das grandes fontes da nossa música. E sua admiração é tanta por ele que recebeu autorização dele para lançar o CD “Luiz Carlos Borges canta Telmo de Lima Freitas”, o que deve ocorrer dentro de alguns meses. 
GONZAGÃO - Luiz Carlos Borges citou a relação com Luiz Gonzaga, o “Gonzagão”, o músico do Nordeste, visto pela opinião pública como o criador do Baião, título que não aceita, porque o ritmo já existia, ele apenas o escolheu. 
O SURGIMENTO DO NATIVISMO - E, finalmente, lembrou da Califórnia da Canção Nativa, da qual sempre participou e onde cresceu artisticamente. Foi nesse festival que os músicos gaúchos decidiram criar a música nativista, para ser a linha musical preferencial do nosso Estado. E isso aconteceu. 
OS QUATRO ÍCONES - Na nossa região, soube de reunião de Jayme Caetano Braun, Noel Guarany, Pedro Ortaça e Cenair Maicá, quatro ícones da nossa música, para identificar características musicais que mais se aproximassem do jeito missioneiro de fazer música. Esse movimento se consolidou.
IRMÃOS BORGES - Lembrou, com saudade, da caminha musical do conjunto “Irmãos Borges”, onde, ainda guri, atuava como vocal e gaiteiro. Citou a dificuldade para conseguir apoio de gravadoras para o grupo deixar sua obra registrada. Foi preciso viajar para Buenos Aires, onde dois LPs foram gravados, para só então abrir-se o mercado fonográfico gaúcho. 
SUPERANDO OBSTÁCULOS - Em sua palestra, deixou claro que existiram dificuldades, obstáculos, que poderiam ter jogado ele e também os Irmãos Borges na lona. Mas felizmente não faltou serenidade para superar bloqueios e o reconhecimento aconteceu. É muito feliz
pela carreira que está construindo e se sente com energia para continuar na vida de músico, porque acha que tem ainda muito a oferecer. Essa noite de palestras iniciou às 19h e encerrou às 23h.   
 

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