01/12/2018 às 08:48
Gila: lembranças, sofrimentos e o retrato de uma vida

Texto e Foto: Róbson Gomes

 

Cada palavra sai atropelada na velocidade em que já não consegue trocar os próprios passos. A voz é aguda e estridente, e no grande teatro da vida, segue o monólogo com rotina sagrada: “Tem sacolinha? Sacolinha? Pão ou leite de vaca? Tem sacolinha?”.

O popular Gila, é outro personagem são-luizense - e convenhamos, que basta olhar pro lado, que nos deparamos com muitas outras personalidades marcantes no município -, que faz parte da própria história da cidade. Não há morador que não conheça ou que não tenha recebido a visita inesperada em uma tarde de sol sufocante, do velho e conhecido pedinte.

 Para alguns, Gila; para outros, o “velho do saco”; mas para ninguém, Verselino dos Santos. Poucos sabem que por trás das mãos atrofiadas, dos pés inchados e calejados de andarilho, da face maltratada pela severidade das décadas na rua, do sofrimento de uma vida em situação muitas vezes quase inaceitáveis, existe uma alma quase santa, pela coragem que enfrenta seu santo pesar. O de carregar em uma bolsa, um fardo grego como se fosse esperança: matar a fome com ajuda alheia.

 Ansioso e admirado em ser ouvido, aos 60 anos, conta que desde criança começou a pedir, juntos com os pais. “Era difícil. Meu pai me batia. Eu saía pedir com minha mãe, Oraide. Eu era bem criancinha”, relembra em repetidas palavras.

 Com linguagem humilde ainda afirma: “Eu acho que meu pai era louco, porque batia muito em mim e na minha irmã. Eu ficava todo demente. Nunca entendi ele, não é certo o pai brigar assim com os filhos”, lamenta.

 Laiva Lopes, moradora da Vila Paz, recebe Gila quase que diariamente. “Sempre que tenho, ajudo, desde quando ele era novinho”, explica. Além disso, revela mais sobre aquilo que o próprio pedinte, deve haver esquecido. “Ele tocava gaita de boca, cantava. Ele e a irmã, a Vanilda. Chamava-mos eles para cantar em nossa casa, era lindo. A Vanilda tinha uma voz que encantava os ouvidos e a gente ficava admirado com aquilo”, diz emocionada.

 Gila confirma:

- A gente cantava, e eu também tocava gaitinha. Hoje não faço mais isso. A Vanilda também não. Tá doente minha irmã. É cega e “braba”, muito “braba”. Ela tem diabetes.

 Aos gritos ele segue pela rua, como quem conhece cada pedra em que coloca os pés. Às vezes, os pedidos são atendidos, e aos poucos a bolsa vai ganhando peso, e com a força que ainda resta, se agarra ao sustento. São bolos, pães, garrafas de leite e doces, que sempre chegam acompanhados de sorrisos amigos de quem o auxilia. “As pessoas são boas comigo, me dão comida e às vezes até conversam. Gosto do carinho. Também gosto de Coca. Eu peço um “refri” para tomar, mas é mais difícil ganhar. Mas eu gosto”, fala empolgado, como criança que sente o espumar de um refrigerante nos lábios.

 Nisso chegamos em um bar, onde Gila vendo um casal tomando cerveja, pediu uma Coca. Não ganhou. Seguimos andando e ele esbraveja: “Tavam tomando porcaria, bebendo cerveja, aí dizem pra gente que não tem dinheiro pra pagar um refrizinho. Claro, ficam gastando com essas porcarias”.

 E no meio do caminho, sempre tem uma pedra. No do Gila, algumas encontram seu rosto. “Tem os marginal na rua, são gente ruim. Me maltratam. Me batem ou jogam pedra. Eu não faço mal pra ninguém. Mas ainda assim apanho. Mas Deus vê isso”, pontua.

 Apesar dos pés inchados, do rosto machucado, das mãos atrofiadas, do cansaço angustioso, a alma do “velho do saco”, transborda e irradia pelos olhos a confiança no divino. As palavras antes atropeladas, agora ganham forma, e em tom reflexível, sem lamentação, exclama: “Eu tenho muita fé. Jesus vai me curar e Deus, um dia, vai me tirar dessa situação. Não vou mais ser debilitado e nem precisar pedir. Um dia. Um dia”, e então se perde nos pensamentos. De repente retoma. “Estou doente. Não quero perder minha perna. Se perder não consigo mais pedir. Mas tenho fé que Jesus vai me curar”, conclui.

 Segue agora em novo assunto, com palavras repetidamente rápidas. Testando meu entendimento, explica que há dias em que vai para Santo Ângelo, onde também pede. Para poder viajar, junta as poucas esmolas que recebe.

 Entre uma casa e outra, o andarilho pergunta sempre das crianças. Luzia Ribeiro, moradora do Centro, enfatiza que ele tá sempre perguntando das crianças. “É uma boa pessoa, são os outros que olham com maus olhos. Tá sempre perguntado por criança. Temos uma aqui em casa e ele nunca esquece e quer saber se ela tá bem. Demonstra preocupação. Gosta muito”, afirma.

 Então Gila me olha. “Amo as criancinhas. Criancinhas. Gosto muito delas. Pobre das criancinhas. Eu fui uma já. Já fui uma criancinha, mas quando eu era, eu pedia”, lamenta.

 Ao chegar em outra residência, corre uma menina ao seu encontro, ao instante em que ele estende a mão e acaricia os cabelos da criança que o tratou de igual para igual. Com os olhos brilhando, ele fala como se abençoasse. “O vovô gosta muito de você”, exclama. Então segue. Em outra casa, o que se desdobra aos meus olhos não é tão bonito, e dilacera o coração.

 Ao ver outra criança, ele estende a mão em um gesto para cumprimentar. Mas leva um não. A menina ficou na porta, o olhando partir. Então, quando já estávamos distantes, escutamos um grito de tchau. Ele me olha e diz: “Sou velho, e às vezes as criancinhas têm medo dos vovôs”, reflete com a voz engasgada.

 De repente, chega em outra casa, ao invés de pedir comida, pergunta se o dono tem água oxigenada e explica: “Aquele sapato que uso, machucou meu pé. Prevalecido. Meu dedo ficou em carne viva. Dói muito. Tinha até bichinho. Tô com medo de perder a perna porque inchou toda ela”. 

 Ao final, cansado de mais um dia em que repete a rotina de uma vida toda a mercê, senta em uma escada. Tira as doações da bolsa. Pega no bolso um monte de sacolinhas. Então organiza os alimentos dentro delas, que foram ganhadas aos gritos em frente as casas que visita. Ali mesmo mordisca algumas bolachas. Morde uma, duas, três vezes, e então o pouco que sobra na mão joga fora.

 Sentado ao pé da escada - que apontava para o céu -, me transmitiu a ideia de que não seria por ela que chegaria a calmaria daquele azul infinito, mas sim, pela sua fé no divino. Há quem pense que a fé não move montanhas, mas guardo a certeza que move almas que sofrem e embala a confiança para seguir em frente, independente da situação em que se vive.

 Para trás, Gila deixa sua história e as migalhas do que come, como se fosse pássaro novo, prestes a voar. História esta, que aos poucos se perde e se esquece.

 

 

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