05/12/2018 às 07:58
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Pedro Raymundo, uma lenda na música gaúcha

 

No princípio, era o verbo e um violão, depois veio a gaita, assim era o cancioneiro nativo. O guasca saía pampa afora em busca de trabalho, mulher e um trago – não necessariamente nesta ordem. De estância em estância atrás de um trabalho, e, à noite, nas rodas de fogo de chão, entre um mate, um naco de carne e um gole de canha, cantar vantagens. Eram histórias de conquistas amorosas, batalhas que muitas vezes eram verdadeiras carnificinas e assim levava a vida, até o dia em que ela o levasse de uma vez. Seria este um possível perfil de um ancestral do músico gaúcho?

Em 1914, Pedro Raymundo, com mais ou menos sete anos e já órfão de mãe, ganha do pai, uma gaita de oito baixos. Dez anos depois, por volta de 1924, faz parte da formação da Banda do Amor à Ordem, isso tudo ainda na terra onde nasceu, em 1906, Imaruí, então pertencente ao município de Laguna (SC).

A gaita, um dos instrumentos que era fruto da contribuição vinda com os imigrantes, primeiro com os alemães, depois com os italianos, caía bem em Pedro Raymundo. Tempos depois, quando trabalhava em Lauro Müller, sofrera um acidente que lhe deixou uma sequela: seu polegar direito foi seriamente afetado. Em 1928, residindo e trabalhando em Laguna, passa a integrar o grupo Choro Chorado.

Um ano depois, após algumas complicações extraconjugais, acaba chegando a Porto Alegre. Na capital gaúcha, em 1930, nasce seu filho Joecy Hedy Raymundo. O casal Pedro e Luíza Nunes já havia perdido dois filhos anteriormente. Em Porto Alegre, Pedro Raymundo consegue emprego na Companhia Carris. O motorneiro Pedro também integra o conjunto de jazz da empresa, e, de quebra, toca no Mercado Público para engordar a renda familiar, afinal já tinha dois filhos para sustentar, isto em 1933.

A partir de 1938 passa a trabalhar, como concursado, no contínuo do Arquivo Público Estadual. Um ano depois, envolve-se outra vez com sua velha paixão, a música, e forma o Quarteto dos Tauras. Desta formação, dois integrantes mais tarde, a dupla Zé Bernardes e Osvaldinho, que interpretando composições de Lauro Rodrigues, contribuiriam para o início de uma afirmação da música regionalista no Estado.

 

Na Era do Rádio

 

O Brasil sintonizado e contemporâneo não poderia ficar de fora da Era do Rádio. Em Porto Alegre, três emissoras despontavam e disputavam a audiência do distinto público: Rádio Gaúcha, Rádio Farroupilha e a Rádio Difusora, isso tudo durante os anos 1930, 1940 e 1950 do século passado. Logo os talentos musicais seriam contratados para formar o cast das respectivas rádios, juntamente com radioatores, conjuntos musicais, incluindo orquestras, apresentadores de programa de auditório e assim por diante. Havia espaço para muita gente competente.

Em 1945, Pedro Raymundo chegava às ondas do rádio. Na verdade, seriam os tempos de sua consagração, uma vez que, desde 1943, ele e seu grupo vinham fazendo sucesso e se firmando no novo veículo. A partir da recriação de canções do folclore gaúcho, como “O boi Barroso” e “Prenda minha”, o Quarteto dos Tauras segue em excursões pelo interior do Rio Grande, Santa Catarina e Paraná, cantando e encantando a todos.

Logo ele passa a ser identificado como o Gaúcho Alegre do Rádio. Não demorou muito para que viesse o primeiro grande sucesso “Adeus, Mariana”, em 78 rpm, pela gravadora Continental.

Da então capital da república para todo o Brasil, “Adeus Mariana” estourou. Nos anos seguintes tudo seria uma consequência de “Adeus, Mariana”. Foram muitos discos, ainda em 78 rpm. Chegou a excursionar ao lado de um grupo, para lá de eclético, formado por Ary Barroso, Luz Del Fuego e Jararaca e Ratinho.

Talento e popularidade seguiram o artista até meados da década de 60. Mas ainda em 1959, um antigo problema o afligia: de tanto tocar seu instrumento, seu dedo – o polegar acidentado anos antes – começava a causar problemas. Foi operado por Luthero Vargas – filho do presidente Getúlio Vargas, seu fã - , e o resultado: dois anos sem poder tocar. Para quem era popular por se apresentar quase sempre ao vivo nas rádios, era uma temporada de risco.

Em 1967, José Mendes estoura com o sucesso “Pára, Pedro”, que vende 600 mil cópias. Sinal de alerta para Pedro? Talvez, mas em 1971 retorna ao rádio, em Porto Alegre, Rádio Gaúcha, com o “Programa Pedro Raymundo”. Já não enxergava direito, os amigos e colegas preocupam-se, é caso de um solidário Teixeirinha que se compadece com a situação do artista, que vinha de ônibus toda a semana de Santa Catarina para apresentar o programa. Ainda em 1973 recebe algum reconhecimento, título de Cidadão Honorário de Laguna. Neste mesmo ano, morre de câncer, em um hospital do Rio de Janeiro, onde dois anos antes recebera o título de Cidadão Honorário do então Estado da Guanabara.

 

 

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