FLORÊNCIO GUERRA E SEU CAVALO

Guiomar Terra Batu dos Santos

11 de Abril de 2018 às 17:14

FLORÊNCIO GUERRA E SEU CAVALO
Florêncio afiou a faca
Para sangrar seu cavalo.
Florêncio Guerra das guerras
Do tempo em que seu cavalo
Pisava estrelas nas serras
Pra chegar antes dos galos.
Florêncio afiou a faca
Pensando no seu cavalo.
Parceiros pelas lonjuras
Na calma das campereadas
Um barco em tardes serenas
Um tigre numa porteira
Pechando boi pelas primaveras
Sem mango... Sem nazarenas...
O patrão disse a Florêncio
Que desse um fim no matungo
“Quem já não serve pra nada
Já não pode andar no mundo!”
A frase afundou no peito
E o velho não disse nada
E foi afiar uma faca
Como quem pega uma estrada.
Acharam Florêncio morto
Por cima do seu cavalo.
Alguém que andava no campo
Viu o centauro sangrado,
Caídos no mesmo barro,
Voltando pra mesma terra,
Que deve tanto ao cavalo
E tanto a Florêncio Guerra.
Letra de Mauro Ferreira, com música de Luiz Carlos Borges, sagrando-se vencedora da Califórnia em 1991. Gosto muito de ouvi-la na interpretação de Luiz Carlos Borges, um dos maiores instrumentistas e intérpretes da música gaúcha. O que me fascina neste artista é a completa harmonia entre instrumento e voz, uníssono perfeito de acordes e voz melodiosa. Até tenho dúvidas se a voz de Borges segue o ritmo do acordeão ou se sua voz é que aciona as teclas deste, tal é o casamento perfeito entre voz e instrumento.
Voltando a Florêncio Guerra (luta que faz florescer, dar frutos, produzir) o autor traz a baila o doído tema da velhice.
Florêncio e seu cavalo envelheceram no trabalho duro juntos:”Parceiros pelas lonjuras, pisando estrelas (na madrugada), em mútua compreensão:”sem mangos, sem nazarenas). Chegada a hora de matar seu cavalo, Florêncio entendeu que era também sua hora:”Afiou a faca como quem segue uma estrada”, construindo-se a patética imagem do Centauro sangrado (ser mitológico metade homem, metade cavalo).
Homens e animais em idênticas condições – valorização da juventude enquanto força produtiva e perda da utilidade pela debilidade física na velhice. Esta é a perversa lógica mercadológica e social que exclui os velhos, considerando-os apenas um estorvo, um problema de saúde pública e familiar, ignorando-se as contribuições já dadas e a sabedoria que carregam consigo. Passam os velhos a ser segregados em asilos, em quartinhos no fundo das casas.
Faz-se necessário que vozes se levantem em defesa dos velhos e que também eles entendam que ter uma asa quebrada não os impedem de cantar, de sonhar, de dirigir suas vidas e os parcos trocados da aposentadoria, como condição de cidadania.
E, a nós, cabe o respeito à vida humana em todas as suas etapas. Respeito? O que é mesmo isto?