NOEL GUARANY – O PAYADOR TRANSCENDENTE
04 de Outubro de 2018 às 10:38

 

Gostaria de lembrar Noel Guarany, na data de seu nascimento, 26 de dezembro, mas não há como esquecer que 6 de outubro é um marco triste na história da cultura missioneira, pois registra a morte de Noel, o payador descendente de guaranis, que cantou seu povo como ninguém.

Quando, por vezes, em momentos de leitura e escuta, visão, audição e coração indivisos e perscrutadores, faço uma incursão pelo universo do nativismo gaúcho, confesso constatar três tipos de composições, quanto à forma, conteúdo e musicalidade: as muito pobres, as medianas e as maravilhosas. Sem tentar comparar o incomparável, tendo Noel Guarany, que é a gênese, como ponto de partida, aporte, referência, há que se afirmar uma vez mais, mil vezes mais e cada vez mais sua supremacia sobre os poetas, cantores e músicos, que seguem suas pegadas e continuam a caminhada por ele iniciada, para manter viva a chama que diferencia o povo gaúcho dos demais.

Basta ouvir alguns versos desfilarem em sua voz inigualável, ao som de seu violão que é um clarim, que a gente passa a mirar e a sentir-se como ele, pois tudo é transcendência: ”Quando canto uma milonga, eu cresço uns metros de altura/ Minha mirada se alonga, quando largo cada verso/ O amargo e o triste disperso, num lírico manotaço/ – cada sentença é um balaço nas coisas do universo”.

 

E os versos? Ah... Os versos brotam da terra, universalizam-se na imagem de nuvens esparsas, levam ao transcendente lirismo das garças: ”Os versos de selva e campo, se perdem ao vento teatino/ Repontando o meu destino, campeia meu pensamento/ Seguem juntito com o vento se amadrinhando comparsas/ Qual duas nuvens esparsas/ em mútuo solidarismo/ Acariciando o lirismo de um branco bando de garças”.

 

De postura irreverente e combativa, nunca disse meias verdades. Sua sinceridade, sua autenticidade e a transparência de seu verbo causavam estupefação. Era demasiadamente grande sua visão de mundo, de realidade social, o que fazia dele muito mais que um payador. Era um vate, cuja luz transcendia sua obra, cujas verdades jorravam nos acordes de seu violão mágico, na harmonia de seu canto tão mais lírico do que xucro, na contundência de suas palavras. Tudo isso deixava atônitos homens comuns, incomodava alguns senhores, soava como veludo para tantos outros, enquanto desbravava caminhos para a música missioneira. ”Às vezes duro de queixo, Às vezes meio macio, Às vezes com turbulência, Às vezes calma de rio, Destes que embalam estrelas, Em claras noites de estio”.

 

Engana-se quem pensa que Noel morreu. O artista não morre nunca. Sua obra eterniza-se, cristaliza-se. Noel Guarany continua vivo em cada guri cantor destes pagos missioneiros, em cada homem e em cada mulher que sonha com paz, igualdade e justiça social. Noel está cantando, está presente, em cada rancho humilde, onde um “palinha velho” serve de forro para crianças. Noel continua vivo em cada jovem faceiro, sonhador e, por vezes, pachola, pois “Até nas noites gaudérias, Meu pala soltito ao vento, Se amadrinhando pachola, Pras luzes do firmamento”.

 

Há muito o que se aprender de Noel Guarany, além da musicalidade. É preciso aprender dele a defesa da verdade tão ausente das práticas humanas, onde se deteriora a ética em todas as instâncias, em todas as camadas sociais. Estamos precisando aprender um pouco da irreverência de Noel, de sua autenticidade, de sua sensibilidade, para nos desacomodarmos e darmos um novo rumo aos nossos tempos, e, assim, seguirmos como ele, sendo como “o Uruguai que, sem deter sua marcha, beija a barranca e se vai”.

 

Os artistas precisam cantar mais o Noel Guarany para difundir a grandeza de seu legado e, não apenas utilizarem-se dele para suas projeções pessoais.

 

Noel é um mito, é joia rara, patrimônio. “Seu canto tradicional, está a cruzar mil fronteiras”. É o payador transcendente a quem não se pode aceitar a expressão payador maldito, mas bendito Noel que tão rica herança nos deixou.

 

GUIOMAR TERRA BATU DOS SANTOS