QUANDO O FRIO DA ALMA RESFRIA A GENTE
24 de Janeiro de 2019 ās 17:31
 
 
Letra: João Antunes
Música: André Canterle
 
Bandido este vento, reboja e revoa
E empurra a garoa na tarde cinzenta
E eu sigo, na lenta, no frio de arrepiar
E pra escorar só o poncho aguenta...
 
Até os arames dos fios do alambrado
Gemendo cinchados, tilintam de frio
Não ouço o pio das aves do mato
E eu sou um retrato sem gáudio e sem brio.
 
O frio que eu sinto é um frio diferente
E que insistente, me açoita, insano
Me gela e faz danos, furioso e sem calma,
Retumba na alma e é pior que o minuano.
 
E eu sigo carente, nesta invernia,
Sem brilho e magia pra o meu coração
Na sina de peão, sem prenda e aconchego
Com desassossegos e a dor solidão.
 
A guampa de canha não me aplaca a sede
No anseio que pede, no peito conciso,
O amor que preciso de uma donzela
Morena e tão bela, flor do paraíso.
 
Por isso este frio que não se acalma
Gelando minha alma se faz insistente
E eu fico doente e sempre padeço
E assim, não me aqueço nem com mate quente!
 
João Antunes, poeta bossoroquense, é autor de uma infinidade de poemas e vencedor de diversos concursos literários e festivais de música nativista. A letra em pauta foi musicada pelo são-luizense André Camperle, cuja voz poderosa enche o palco e leva a emoção a derramar-se sobre o público.
Conheço João Antunes desde muito jovem e já versejador. É um obstinado na vida e na arte. O tempo é pouco para o tanto que sonha concretizar. O mundo mora dentro dele, transborda, escorre em palavras; nasce, então, o registro do quotidiano passado e presente, em textos narrativos, em poesia xucra, em poesia lírica.
 
No presente poema-letra, é esteticamente primoroso: Seis estrofes de quatro versos, de maioria hendecassílabos, onde a rima expõe-se no esquema: AABBCCB em todas as estrofes, de forma encadeada, do primeiro verso com o segundo, do segundo com o terceiro e do terceiro com o quarto, para arrematar impecavelmente em rima final entre o segundo e o quarto verso, uniformemente em todo o poema.
 
 
Aliando linguagem e sentido, o próprio poema é uma prosopopeia, desde o título até o final: Alma que sente frio, que resfria; O vento é bandido; os arames do alambrado gemem, tilintam de frio; o frio furioso, sem calma, insano, açoita, gela, faz danos, retumba, resfria minha alma.
Ao eu lírico do poeta, no entanto, resta a passividade - segue na lenta, no frio, carente, é um mero retrato, sem gáudio, sem alegria, sem brio, sem coragem, um inerte, adoecido pelo desassossego, pela dor da solidão”.
 
 
Pobre peão sem aconchego, sem que nada o aqueça, não lhe basta o aconchego do poncho; o gole de canha não lhe aplaca a sede de amor; o frio da alma dói na própria alma, pois lá mora o amor e lá lateja clamando pela prenda morena flor do paraíso.
Parabéns, João Antunes!
 
 
 
GUIOMAR TERRA BATÚ DOS SANTOS