CIDADANIA
08 de Março de 2019 ās 16:55

Vestido novo: quadrados em marrom e rosa. Bolas vermelhas sobrepostas. Lindo vestido novo.

 

Furinhos aqui, ali, acolá, calando fundo na terra vermelha. Os filhos fazem a festa. Qual mais quer pisar nos buraquinhos no chão. Buraquinhos que em sequência vão marcando um trilho na caminhada.
 
A mãe saíra cedo com o vestido novo e os sapatos de salto. E salto bem alto e bem fininho a penetrar o chão, como penetrava a firmeza dos seus passos na longa caminhada da vida sofrida, de sol a sol, em geada e sereno.
 
O dia se reveste de uma importância inusitada. Já no Jeep do vizinho que a levaria à cidade, a mãe suspira preocupada com os filhos que ficaram.
Em casa, o pai chama os filhos com voz grave, manda lavar as mãos que o almoço está quase pronto. A filha mais velha põe a toalha xadrez surrada sobre a mesa redonda enorme. O pai mexe a panela muitas, muitas vezes, soca, esmaga bem aquele feijão e logo serve à mesa o feijão mexido, delicioso, inesquecível.
 
À tardinha, a mãe retorna entre contente e preocupada. Contente com sua atitude. Preocupada com o marido que a cada suspiro levantava as sobrancelhas e olhava-a de soslaio, enquanto lhe alcançava um mate, fingindo indiferença, escondendo o ciúme costumeiro.
Ignora o marido. Coisa pequena não pode atrapalhar felicidade grande. A partir daquele dia, teria direito a votar. Era uma cidadã, com documento qualificado: seu título eleitoral.
 
Vai para o quarto, troca a roupa, veste o roto vestido quotidiano, guarda os sapatos de saltos. Os sapatos que naquele dia marcaram o chão por onde pisara, que passos de mulher são para isto: para marcar, quer com saltos altos e vestidos novos, quer de pés descalços e vestidos rotos.
 
(Na passagem de mais uma data – 8 de março – em que se comemora o dia da mulher, que nós, mulheres, saibamos dar a devida importância ao nosso voto; valorizemos seu peso para fazer um mundo melhor ou pior, pois no mundo somos uma grande maioria e podemos construir uma nova realidade para nossos filhos e filhas, nossos netos e netas. Olhemos o mundo com consciência e ternura!)